Endometriose: Por Que o Diagnóstico Ainda Demora 7 Anos e o Que Mudou no SUS em 2026

Composição de flores amarelas e rosa em formato de útero ao lado de um coletor menstrual rosa, simbolizando saúde da mulher e endometriose
A endometriose afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil

Você provavelmente já ouviu alguém dizer que cólica menstrual forte é "normal" e que basta tomar um remédio e seguir o dia. Para milhões de mulheres, essa frase adia por anos o diagnóstico de uma doença real: a endometriose. Em 2026, dois movimentos colocaram o tema de volta em pauta no Brasil: o Ministério da Saúde atualizou o protocolo clínico da doença, revogando uma norma que estava em vigor desde 2016, e o governo abriu uma chamada pública de R$ 60 milhões para financiar pesquisas sobre o assunto.

Neste artigo você vai entender o que é a endometriose, por que o diagnóstico ainda demora tanto, o que mudou no tratamento pelo SUS e quando vale a pena procurar um ginecologista.

O que é endometriose, afinal

A endometriose acontece quando um tecido parecido com o endométrio, a camada que reveste o interior do útero, passa a crescer fora dele: nos ovários, nas trompas, no intestino, na bexiga ou em outras regiões da pelve. Esse tecido reage aos hormônios do ciclo menstrual como se ainda estivesse dentro do útero, engrossando e sangrando todo mês. Como esse sangue não tem para onde ir, ele provoca inflamação, dor e, com o tempo, pode formar aderências e cistos.

Segundo o Ministério da Saúde, a doença é benigna, mas crônica: não tem cura definitiva, apenas controle dos sintomas. A estimativa oficial é que ela afete entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil. A Organização Mundial da Saúde usa um número global parecido, de cerca de 10%, o equivalente a 190 milhões de mulheres e meninas em todo o mundo.

Os sintomas que muita gente aprende a ignorar

O sintoma mais citado é a cólica menstrual intensa, a chamada dismenorreia, mas raramente é o único. Segundo o Ministério da Saúde e a OMS, os sinais mais comuns incluem:

Cólica que não passa com analgésico comum e piora progressivamente a cada ciclo.
Dor pélvica crônica, presente mesmo fora do período menstrual.
Dor durante ou depois da relação sexual (dispareunia).
Sangramento menstrual intenso ou irregular.
Sintomas intestinais e urinários cíclicos, como inchaço, dor para evacuar ou urinar, que pioram perto da menstruação.
Dificuldade para engravidar, que em muitos casos é o motivo que leva ao diagnóstico.

Nada disso, isoladamente, fecha o diagnóstico. Mas a combinação de cólica incapacitante com qualquer um dos outros sinais é o principal motivo para procurar um ginecologista, e não apenas normalizar a dor.

Por que o diagnóstico demora, em média, 7 anos

Esse número não é exagero: está no próprio site do Ministério da Saúde. A média entre o início dos sintomas e a confirmação da endometriose no Brasil é de sete anos. A OMS estima uma faixa parecida no cenário internacional, de 4 a 12 anos.

Existem alguns motivos concretos para essa demora. O primeiro é cultural: a dor menstrual forte é tratada como parte normal de ser mulher, então muitas pacientes só buscam ajuda quando a dor já atrapalha o trabalho, os estudos ou a vida social. O segundo é técnico: exames de imagem comuns, como o ultrassom transvaginal de rotina, não enxergam lesões pequenas de endometriose se não forem feitos com preparo específico. O terceiro é que o exame considerado padrão-ouro, a videolaparoscopia, é um procedimento cirúrgico, reservado para quando outros exames já levantaram forte suspeita.

Ilustração médica do útero, trompas e ovários, mostrando a anatomia do sistema reprodutor feminino
O tecido da endometriose pode aparecer nos ovários, nas trompas e em outras regiões da pelve

O que mudou no protocolo do SUS em 2026

Em junho de 2026, o Ministério da Saúde publicou uma nova portaria que revogou o protocolo clínico e diretrizes terapêuticas (PCDT) de endometriose que estava em vigor desde 2016. O novo documento atualiza os critérios de diagnóstico, os critérios de inclusão e exclusão para tratamento e as opções terapêuticas oferecidas pelo SUS, alinhando a rede pública a uma década de evidência científica acumulada desde a versão anterior.

Na prática, isso significa protocolos mais claros para os médicos da rede pública sobre quando suspeitar da doença, quais exames pedir primeiro e em que momento encaminhar a paciente para avaliação cirúrgica, além de critérios mais objetivos para o acesso a tratamentos hormonais e cirúrgicos pelo sistema público.

Como o diagnóstico é feito na prática

Segundo o Ministério da Saúde, o caminho diagnóstico pelo SUS costuma envolver:

Exame clínico e histórico detalhado dos sintomas, incluindo o padrão da dor ao longo do ciclo.
Ultrassom transvaginal com preparo intestinal, uma versão do exame que exige preparo prévio do intestino e consegue identificar lesões que o ultrassom de rotina não vê.
Ressonância magnética de pelve com contraste, usada principalmente para mapear lesões mais profundas antes de uma cirurgia.
Videolaparoscopia, o exame cirúrgico minimamente invasivo que permite ver e, muitas vezes, já tratar as lesões no mesmo procedimento.

Nenhum exame de sangue confirma endometriose sozinho. Pedir “o exame que detecta endometriose” em uma farmácia ou laboratório sem indicação médica não substitui essa investigação.

Os tratamentos disponíveis hoje

Não existe cura definitiva, mas existe controle eficaz para a maioria dos casos. As opções mais usadas, tanto pelo SUS quanto na rede privada, incluem:

Anti-inflamatórios e analgésicos para crises de dor.
Contraceptivos hormonais combinados, DIU hormonal (levonorgestrel) e progestagênios isolados, que reduzem ou interrompem a menstruação e, com ela, o estímulo ao tecido endometrial fora do útero.
Análogos de GnRH, usados em casos mais específicos, sob supervisão médica.
Videolaparoscopia ou laparotomia para remover lesões e aderências, indicadas quando o tratamento clínico não é suficiente ou há impacto na fertilidade.
Histerectomia, reservada para situações bem específicas, geralmente quando não há mais desejo de engravidar e outros tratamentos falharam.

A OMS reforça que o acompanhamento multidisciplinar, incluindo fisioterapia pélvica e suporte psicológico, ajuda bastante no controle da dor crônica e no impacto emocional da doença. Se o quadro de inflamação e dor abdominal recorrente parecer familiar, vale complementar a leitura com o nosso guia sobre barriga inchada: por que acontece e como desinchar de vez, que ajuda a diferenciar inchaço digestivo comum de sinais que merecem avaliação médica.

Os R$ 60 milhões que o Brasil está investindo agora

Em agosto de 2026, o CNPq abriu uma chamada pública de R$ 60 milhões para pesquisa sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual, sendo R$ 50 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e R$ 10 milhões do Instituto Alana. O edital financia projetos em cinco eixos: causa e prevenção, diagnóstico, tratamento, biorrepositório e impacto social, com foco em soluções aplicáveis dentro do SUS. As inscrições terminaram em 12 de agosto e o resultado deve sair em dezembro de 2026.

A chamada cita números que ajudam a entender por que o tema virou prioridade: 6 em cada 10 estudantes que menstruam relatam cólicas fortes ou moderadas que atrapalham a rotina e exigem remédio, 4 em cada 10 faltam às aulas por esse motivo pelo menos uma vez por mês, e mulheres com cólicas intensas podem perder até 10,8 horas de trabalho por semana. Ou seja, o impacto vai muito além do consultório médico.

Quem já lida com inflamação crônica e desequilíbrio hormonal também costuma se identificar com outra condição ginecológica comum, a síndrome dos ovários policísticos. Vale a leitura do nosso artigo sobre SOP e emagrecimento: por que fica tão difícil perder peso com síndrome dos ovários policísticos para entender como o equilíbrio hormonal afeta o corpo de formas parecidas.

Uma dieta anti-inflamatória, aliás, é uma das medidas de suporte mais citadas por especialistas para ajudar no controle dos sintomas ao lado do tratamento médico. Já mostramos como isso funciona no artigo sobre lipedema, obesidade e por que a dieta anti-inflamatória importa.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui consulta médica. Se você tem cólicas fortes, dor pélvica persistente ou dificuldade para engravidar, procure um ginecologista para avaliação individual.

Perguntas frequentes

Endometriose tem cura?
Não. É uma doença crônica, mas controlável na maioria dos casos com tratamento hormonal, cirúrgico ou uma combinação dos dois, definido junto com um ginecologista.

Toda cólica forte é endometriose?
Não necessariamente, mas cólica que piora a cada ciclo, não melhora com analgésico comum ou vem acompanhada de dor na relação, sangramento intenso ou dificuldade para engravidar é motivo para investigar.

Existe exame de sangue que detecta endometriose?
Não isoladamente. O diagnóstico combina histórico clínico, ultrassom transvaginal com preparo intestinal, ressonância magnética e, quando necessário, videolaparoscopia.

Endometriose sempre causa infertilidade?
Não sempre, mas é uma causa relevante de dificuldade para engravidar. Nem toda mulher com a doença terá problemas de fertilidade, e muitas engravidam com ou sem tratamento.

O que mudou de fato com o novo protocolo do SUS?
O Ministério da Saúde atualizou, em junho de 2026, os critérios de diagnóstico e tratamento oferecidos pela rede pública, substituindo a norma que estava em vigor desde 2016.

Conclusão

A endometriose ainda demora, em média, sete anos para ser diagnosticada no Brasil, mas 2026 trouxe dois sinais concretos de que isso pode mudar: um protocolo do SUS atualizado depois de dez anos e um investimento público recorde em pesquisa sobre o tema. Enquanto a ciência avança, o passo mais importante continua sendo individual: não tratar cólica incapacitante como parte normal da vida e procurar avaliação médica quando os sintomas atrapalham a rotina.

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