Quase todo mundo que já tentou emagrecer, em algum momento, abriu um aplicativo de celular e começou a anotar cada caloria que colocava no prato. Faz sentido, afinal, a matemática do emagrecimento parece simples, comer menos do que se gasta. Só que a ciência mais recente sugere que essa conta, sozinha, não conta toda a história. Neste artigo vamos ver o que um estudo publicado no JAMA encontrou sobre o assunto e por que a qualidade da comida pode pesar mais do que os números.
Por que contar calorias virou o conselho padrão
O princípio por trás da contagem de calorias é real, o corpo emagrece quando existe um déficit energético consistente ao longo do tempo. Esse é o motivo pelo qual, por décadas, médicos e nutricionistas recomendaram anotar cada caloria como o caminho mais direto para perder peso. O problema é que essa recomendação trata o corpo como uma calculadora, e o corpo humano é bem mais complicado do que isso.
O que um estudo publicado no JAMA encontrou
Um estudo conduzido nos Estados Unidos, noticiado pelo New York Times, acompanhou pessoas com sobrepeso e obesidade divididas em dois grupos, um seguindo uma versão saudável de dieta com baixo carboidrato e outro seguindo uma versão saudável de dieta com baixa gordura. Nenhum dos grupos foi instruído a contar calorias ou reduzir porções. A orientação central era simples, priorizar vegetais e alimentos integrais no lugar de açúcar de adição, grãos refinados e alimentos ultraprocessados.
Ao final de um ano, o grupo de baixo carboidrato perdeu em média seis quilos, e o grupo de baixa gordura perdeu em média cinco quilos, com melhora em marcadores de saúde como glicose, pressão arterial e circunferência de cintura nos dois grupos. Não tenho acesso direto ao artigo científico original publicado no JAMA, então esses números vêm da cobertura jornalística do estudo, não de uma verificação minha na fonte primária. Se você quiser citar esses valores com precisão, recomendo checar a publicação original antes.
Por que focar só nos números pode sair pela culatra
Segundo a nutricionista Talyta Machado, em entrevista ao portal Metrópoles, o corpo humano é muito mais complexo do que uma conta matemática. Ela explica que restringir calorias de forma agressiva pode ativar a chamada termogênese adaptativa, quando o metabolismo de repouso diminui além do esperado, dificultando ainda mais a perda de peso e favorecendo o efeito platô.
Outro ponto levantado pela especialista é comportamental, olhar apenas para números tende a levar a escolhas piores. Segundo ela, é comum a pessoa comparar um prato saudável com um lanche rápido só pela contagem calórica e, no fim, acabar preferindo algo bem menos nutritivo só porque o número parece mais baixo no aplicativo.
Então as calorias não importam nada
Não é bem assim. O balanço energético continua sendo um fator real no emagrecimento, ninguém perde peso comendo mais calorias do que gasta, independentemente da qualidade da comida. O que a evidência sugere é que perseguir apenas o número, sem prestar atenção à qualidade, tende a ser menos sustentável e menos eficaz na prática, porque comida de qualidade ajuda a controlar a fome, evita picos de glicose e facilita manter o hábito por mais tempo, coisas que já detalhamos no artigo sobre como controlar a fome para emagrecer.
Quer entender a fisiologia por trás do emagrecimento, além dos números?
O ebook Emagrecimento, da nutricionista Juliana Stein, explica fisiologia, macronutrientes e estratégias com embasamento científico.
Link de afiliado. Preço e condições sujeitos a alteração pelo vendedor.
O que fazer na prática
Em vez de abrir o aplicativo antes de cada refeição, uma alternativa mais sustentável costuma ser priorizar alimentos in natura ou minimamente processados na maior parte do tempo, cozinhar mais em casa e comer devagar, prestando atenção aos sinais de fome e saciedade. Esse é, inclusive, o espírito por trás de padrões como o que descrevemos no artigo sobre a dieta mediterrânea, que também não depende de contar cada caloria para funcionar.
Vale lembrar ainda que, seja qual for a estratégia escolhida, contagem de calorias, jejum intermitente ou qualquer outro método, o fator que mais aparece associado a resultados duradouros é a capacidade de manter o hábito por anos, e não por algumas semanas, como já vimos no artigo sobre jejum intermitente.
Perguntas frequentes
Contar calorias é inútil para emagrecer?
Não é inútil, mas parece não ser o fator mais importante isoladamente. O balanço energético importa, porém a qualidade da alimentação parece influenciar diretamente a saciedade, o metabolismo e a sustentabilidade da mudança de hábito.
Atletas e pessoas com metas estéticas devem contar calorias?
Segundo a nutricionista consultada pelo Metrópoles, contar calorias pode ajudar nesses casos específicos, mas não deveria ser o primeiro plano para a maioria das pessoas que só querem emagrecer com saúde.
Dieta com baixo carboidrato emagrece mais que dieta com baixa gordura?
No estudo mencionado neste artigo, o grupo de baixo carboidrato perdeu um pouco mais de peso que o grupo de baixa gordura, mas ambos os grupos apresentaram perdas significativas e melhora nos marcadores de saúde. Não há uma resposta única e definitiva sobre qual é superior para todas as pessoas.
Preciso saber meu tipo genético para escolher a dieta certa?
Segundo a cobertura do estudo, o sucesso das dietas não pareceu estar relacionado a fatores genéticos testados, o que sugere que testes de DNA vendidos com essa promessa merecem bastante ceticismo.
Aviso importante
Este conteúdo tem caráter informativo e foi construído a partir de pesquisa em fontes públicas e reportagens sobre estudos científicos. Ele não substitui orientação de nutricionista, médico ou outro profissional de saúde qualificado. Antes de adotar mudanças alimentares significativas, consulte um profissional, especialmente se você tiver alguma condição de saúde preexistente.
Comentários
Postar um comentário